Estas notas vêm das mais antigas, mais abaixo, às mais recentes, contando a(s) história(s) do cineclubismo brasileiro de 2003 até hoje sob a forma de reminiscências bem pessoais, subjetivas, inexatas com frequência, o que não deixa de ser uma fonte histórica, questionável como outras. Este tipo de abordagem reflete e reproduz um nível da memória intermediário entre o pessoal e o coletivo, que não é contemplado em outros níveis de registro. Comporta fatos e informações frágeis, sob certo ponto de vista, mas que desapareceriam se dependessem apenas de critérios estritamente científicos (ou acadêmicos) ou instituições (ou conveniências) políticas. Creio que a existência destas notas poderá provocar outros escritos, correções, reações, reclamações, indignações de citados e não citados, lembrados ou esquecidos, injustiçados e justiçados. Só isso já seria interessante num quadro de apatia e conservadorismo que marcam bastante o cineclubismo - e outros movimentos sociais - no Brasil hoje.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Bueno, passaram-se 5 meses desde o texto anterior. Passei o outono me atualizando na universidade, com uma carga de trabalho enorme. Comparativamente, agora vai ficar mais fácil, pois passo à pesquisa “pura” e aos assuntos que me interessam diretamente. Por isso acho que poderei manter estes blogues e, ou deixar uma contribuiçãozinha aí para os cineclubistas ou, pelo menos, sossegar algumas das minhas ansiedades. Como dá para ver na foto acima, tirada da minha janela há alguns dias, o verão ficou longe. Mas hoje está um belo dia, ensolarado, que é quando fica mais frio. Está 29 graus negativos.

A Jornada de 2004

Retomando, então, o relato de 2004, vou para Rio Claro, no final de novembro. O Encontro Ibero-americano foi um primeiro contato mais organizativo mesmo com o pessoal da Argentina (Juan Carlos Arch – ver entrada anterior do blogue) e do México, com vários representantes. Mas também estava presente o Perú, meio de observador, assim como todos os membros da Comissão Reorganizadora Nacional e mais uns anexos. Importante lembrar o Leonel Luccini, cineasta e cineclubista argentino, pessoa muito querida, radicado há muitos anos em Brasília e que sempre esteve muito próximo do Juan Carlos Arch, com quem tinha muito em comum, inclusive uma grave doença que levaria ambos nos anos seguintes. Também o Carlos Seabra (1) e a Zezé Pina, mulher dele (ou vice-versa), que também estabeleceram seus laços com os visitantes estrangeiros. E a Bia Werther (2), que fez um grande esforço para criar uma organização regional do Rio Grande do Sul e levou uma grande delegação para a Jornada, o que foi muito importante. A Bia tem grandes e raras qualidades, como inteligência e caráter, mas é sobretudo uma artista - com o que isso tem de positivo e negativo - mais que uma cineclubista, e tem uma personalide, um ego, digamos, bem desenvolvidos: na prática isso inviabiliza uma atividade coletiva consequente. Mas isso é assunto para mais adiante.

O Encontro, sem tanta representatividade em termos de países, teve o papel fundamental de integrar as pessoas, em níveis de camaradagem, amizade, informalidade, alegria, que eu só conheço no movimento cineclubista – e reconheço de outras épocas. Muita conversa, muita festa: vínculos realmente orgânicos como diria o próprio Gramsci, acho. Saiu uma Carta de Rio Claro, desgastada “tradição” de reuniões desse tiopo, com princípios bem gerais cuja eloqüência expressava pouco mais que essa camaradagem, importante - não, fundamental - no entanto.

Os "gringos" ficaram para a Jornada, realizada logo em seguida em São Paulo. Como eu disse antes, a organização da Jornada havia sido assumida pelo Claudino e uma pequena equipe que ele trouxe do Espírito Santo, face à absoluta incapacidade de organização do Centro Cineclubista. No entanto, assim que a organização se resolveu, o pessoal do Centro retomou o mando do evento – de resto como lhe havia sido atribuído pela Jornada anterior, de Brasília.

O clima era muito ruim. Eu falei da presença da Comissão Nacional em Rio Claro, mas ela pouco ou nada participou do Encontro internacional: ficou tentando administrar a crise provocada pelas posições do Diogo (ver entrada anterior do blogue) e seus aliados: fundamentalmente um grupo do PC do B paulista, mais o Luiz Orlando (ibid.) e uma liderança da Bahia que teria um papel importante nos acontecimentos seguintes: Lú Cachoeira (3), uma figura escorregadia que sempre trabalhou pela divisão do movimento cineclubista brasileiro – voltarei a ele, infelizmente.

O Luiz Orlando, ao contrário, sempre foi um cara fantástico. Eu acho que uma relação pessoal muito forte com o Diogo sempre o levou a fechar com um sectarismo que não combinava com ele. Tanto que, quase sempre em posições opostas nos eventos cineclubistas, mantínhamos correspondência mesmo comigo no Canadá: ele mandava material para o meu saite (por carta e endereçada com máquina de escrever, o que não se esquece, né?).
Estes anos têm sido de perdas muito significativas para o movimento cineclubista: desde figuras históricas mais longínquas, como o Carlos Vieira ou o Rudá de Andrade, até os mais ou menos da minha geração, que tiveram ainda um papel importante nesta etapa do cineclubismo brasileiro. Luiz Orlando foi um dos maiores – e dos melhores que eu conheci.
Mas, voltando: o que eu havia “cantado” meses antes (ver o texto A Vanguarda do Atraso na seção Debate, em http://cineclube.utopia.com.br/ ), aconteceu. São Paulo apresentava-se para a Jornada com quase 50 cineclubes, a maioria da capital. O que equivalia a mais ou menos a metade do total dos cineclubes presentes, de todo o País. Ora, era notória a ausência de atividade cineclubista em São Paulo e claramente visível a “maioria” construída para ganhar votações e eleições: cerca de 40 cineclubes completamente inventados.

A crise estabeleceu-se desde as reuniões da Comissão em Rio Claro e iria explodir nas plenárias e outras reuniões da Jornada. Com base na tradição democrática do movimento – conforme os antigos estatutos do CNC – a Comissão Nacional passou a examinar a existência dos cineclubes sob os critérios de terem estrutura democrática e seis meses de existência comprovada antes da Jornada. Dos 7 membros da Comissão, apenas o Diogo e o Luiz Orlando – muito sem jeito este último – votaram a favor da atribuição de votos a esses “cineclubes”. Mas, pela mesma tradição, essas decisões deviam ser reafirmadas pela assembléia, em grau de apelação.

Paralelamente, a Jornada se desorganizava. O grupo do Centro Cineclubista, responsável pela organização, abandonou suas tarefas e o programa de atividades começou a furar em todos os aspectos. A atitude golpista desse pessoal de São Paulo – havia outros cineclubes desse estado, principalmente do interior, que não tinham nada a ver com isso – acabou provocando um efeito inverso, e positivo. As novas lideranças, que não entendiam muito bem as desconfianças entre os dois grupos de antigos cineclubistas (que já tinham se oposto mais de 20 anos antes), uniram-se em face do golpe, formando uma ampla maioria nacional. As assembléias, prejudicadas pelo clima, provocações e até malentendidos (eu mesmo, no calor da briga, encaminhei contra o direito de voto de um cineclube do grupo do Diogo que, entretanto, tinha de fato atividade (4) – do que me arrependo bastante), recusaram o direito de voto à grande maioria dos falsos cineclubes.

A Jornada quase deixou de funcionar, mantidas apenas as condições de alojamento e alimentação – todas no hotel Excelsior (onde meu pai trabalhou, uns 50 anos antes), no centro velho de São Paulo – negociadas previamente. A impressão de documentos, essenciais, deixou de ser feita e a obtenção de salas para grupos de trabalho e atividades semelhantes que constituem o eixo do congresso, ficaram muito prejudicadas. Mesmo assim, uma assembléia bastante representativa discutiu detalhadamente e fez várias modificações na proposta de estatutos que eu apresentei (também está na rubrica da Jornada, no saite citado anteriormente). Apesar de ser interrompida várias vezes pelas provocações, especialmente do João Subires, se fazendo de carne-de-canhão para o “grupo do Diogo”.

Os convidados estrangeiros estavam entre a perplexidade e a diversão, pouco acostumados à virulência que se via nas reuniões e assembléias que, ao mesmo tempo, indicavam um grau elevado de participação, de democracia (comparativamente, hoje vivemos uma atmosfera de cumprimentos gentis e silêncios eloquentes). Isso foi bem engraçado.

Sob a liderança do Professor Jeosafá, por parte do Centro Cineclubista, e mais ou menos do núcleo da Comissão Nacional, pelo resto do País, reuniões frenéticas se realizavam, tentando acertar a participação do grupo golpista na diretoria que seria eleita. Ele dizia que, se eles não participassem da direção eleita, os representantes do partido dele no governo e no ministério da Cultura isolariam a entidade que saísse daquele congresso. Palavras proféticas – não é bem o termo, né? – que se confirmaram logo em seguida e nos anos seguintes. Por outro lado, se aceitássemos , eles adiantavam cifras importantes, em grana mesmo, que viriam do governo: na casa do milhão, ou mais... Eu me incluí nesse "aceitássemos" porque me reconheço naquele grupo e participei ativamente de muita coisa, mas não especificamente dessas reuniões: morava no Canadá e não seria candidato a nada. Hoje a situação ficou bem diferente e eu, mesmo quando ainda estava no Brasil, e com cargo na entidade!, fui sendo afastado das instâncias de discussão do CNC - assunto a que chegarei mais dia, menos dia...

Na 25a. Jornada, essas “negociações” ocorriam entre lideranças, um grupo um pouco ampliado da antiga Comissão Nacional (cujo mandato se encerrava com a realização da Jornada) e o entourage do Diogo e do Jeosafá. Mais tarde, principalmente no quarto do Claudino, essas conversas eram submetidas a grupos mais amplos, incluindo muitos estados. E de lá se disseminavam em outros quartos e reuniões da mais variada qualidade... Foi essa “base” ampliada que desautorizou (bons tempos...), que recusou qualquer composição – acho que o golpe, a sofreguidão pelo poder, muito aparente, realmente chocou o pessoal que, durante os meses anteriores, não entendia muito as divergências que tinham aparecido entre os cineclubistas mais velhos. Não aceitar a chantagem foi condição para a construção de uma unidade muito grande, nacional.

Teve um momento especial, de catarse mesmo, em que se selou essa unidade e se decidiu realmente pela reorganização do CNC, com o compromisso de todos. Nesse “pacto” estavam presentes uns dez estados, um montão de gente, apertados naquele quartinho do hotel. A única ausência, entre os estados que compareceram à Jornada, era a Bahia. O carioca Frederico Cardoso, sempre contrário à organização da entidade, foi o último a aderir ao projeto.

Rompidas as negociações, a coisa degringolou completamente. Na plenária seguinte, o Diogo fez um pronunciamento e promoveu uma retirada épica, teatral, da Jornada. Saiu o grupo paulistano, bem minoritário, sem esvaziar a plenária. O Lú Cachoeira criou um “muro” muito curioso para se aboletar: ele propôs que a Bahia (cujas bases participaram ativamente, por exemplo, da discussão dos estatutos do CNC) se declarasse ausente, mas que ficasse na plenária. Ele mesmo arranjou um jeito de ficar na mesa; até tentou ficar dirigindo a assembléia, mas foi afastado, pela própria, da presidência dos trabalhos. Essa coisa meio esquizofrênica foi meio tragicômica. Por um lado, a manipulação de um sentido de solidariedade regional fez com que a Bahia, que estava representada por um número significativo de cineclubes, não integrasse mesmo aquele momento especial de reorganização do movimento cineclubista. Por outro lado, quando alguém da delegação baiana se manifestava – porque queriam e mereciam participar – “não estava presente”. Eu me lembro de uma senhora do interior que disse mais ou menos isto, ao final de uma intervenção: “mas eu estou aqui, né?”. Ou, como diria o Galileu: eppur si muove...

Tudo isso fez da Jornada um encontro memorável, marcante pelos aspectos positivos – a reunião de uma grande número de estados brasileiros, dezenas de cineclubes, o estabelecimento de fortes amizades, breves romances e, especialmente, a afirmação de um desejo comum de construir um movimento realmente nacional (e internacional), de levar as comunidades (mais tarde diríamos o público) a participar da política do audiovisual no Brasil. Mas onde também o lado negativo cobrou sua fatura: a jornada se concentrou mais, mais tempo, no afastamento das dificuldades do que na construção, na definição mesmo de um projeto comum. De certa forma essa tem sido a marca do movimento brasileiro, que não aprofunda seu projeto e não constrói sua autonomia com a mesma ênfase que coloca, hoje, em aspectos formais e, sobretudo, na relação (não, dependência mesmo) com o Estado. Nesse sentido, consideradas as dificuldades dessa Jornada – e comparando com outras, bem mais “pacíficas”, mas igualmente pouco produtivas nesse quesito - ela foi uma vitória importante. Entra para a História com o instrumento de reorganização do movimento cineclubista no começo deste século.

Assim, a Jornada conseguiu estabelecer uma diretoria para o CNC, com representantes de 10 estados. Mas não discutiu um programa para essa direção: o tempo (4 dias inteiros) havia sido consumido em todas as brigas e peripécias que eu descrevi aqui muito sucintamente.
O programa aprovado na plenária final foi escrito por mim (prestação de contas) – por delegação de todos e porque era eu quem mais tinha feito proposições concretas para o movimento, no saite e em textos como o estudo da proposta da Ancinav (que pode ser visto no saite já indicado, na rubrica Documentos).
Eu, claro, sou suspeito, suspeitíssimo, para falar, mas o programa (que está no saite do CNC: http://www.cineclubes.org.br/ ) foi reiterado nas Jornadas seguintes, em 2006 e 2008. O que, acredito (ou espero), não se deve apenas à pouca discussão a que me referi antes, mas também à qualidade do projeto, da interpretação que fiz de uma posição do conjunto do movimento.

Notas

(1) Carlos Seabra, liderança histórica do movimento, o cara que órienta e constrói nossas idéias e eventualmente instrumentos na área da informática. Mas que é bem mais que um especialista nisso.
(2) Bia Werther é gaúcha, cineasta e estimuladora de uma série de iniciativas, como a lista Cine8, o Festival LivreOlhar, entre outras.
(3) Luiz Cachoeira – não sei se é o nome do Registro Civil, é uma liderança política relativa (candidato a vários cargos municipais, nunca foi eleito), atuando também no meio cultural da cidade do mesmo nome, na Bahia.
(4) Creio que o nome era Cineclube Kinopheria, do bairro de Itaquera, representado pelo João Luiz de Brito Neto, um militante cineclubista de longa data, que respeito muito.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009


Comecei este texto ainda no verão, finzinho de julho, começo de agosto.
E só fui retomar o texto e fazer este blogue no final do ano.
Mas resolvi manter o original, abaixo, exatamente por ser a afirmação da proposta deste espaço, bem pessoal, desigual, sem pretensão à exatidão e fidedignidade, que aliás não existe.
Bom, vamos lá:

Brasília e a Comissão Nacional de Reorganização

Estou aqui, olhando o bulevar Saint-Laurent pela janela (onde fica esse cineminha pornô aí da foto, só que umas três ou quatro quadras lá para baixo) e pensando que quase exatamente há quatro anos eu saía daqui – daqui, não, era outro bairro, Rosemont - e ia para o Brasil, voltar a cineclubar, graças ao convite do Batista (1) para que assumisse a direção de atividades culturais do Memorial (2). Mas os dois sabíamos que eu ia era cineclubar.

Está um calor infernal, muito úmido; o verão aqui é este mês... E eu indo e vindo em mensagens que chegam do Brasil. Acabei de me desligar da lista da diretoria do Conselho Nacional de Cineclubes; na verdade antes que me desligassem. O motivo alegado, após sugestão do Pimentel (3), foi bem formal: eu me demiti, não sou mais diretor, não posso fazer parte da lista. Desde que a lista existe eu fazia parte dela, diretor só fui por uns poucos meses. É que antes eu colaborava, agora questiono; a formalidade não me convence.

Mas os vínculos - formais, bem entendido - vão caindo. Abre-se uma distância que cresce muito rapidamente. Vivo de novo em Montreal. J’suis icitte, montréalais à nouveau... O que foram esses quatro anos, curtos e longos quatro anos, entremeados de duas mudanças radicais, totais? De país, de vida. Que loucura.

Vou fazer um exercício de memória, uma revisão para mim e, como isto aqui é público, uma espécie de prestação de contas para me situar diante de comentários os mais variados que algumas pessoas devem estar trocando, propagando. Também acerto de contas. Um exercício de coloquialidade (?), pessoal, em vez de teorizar, o que leva muita gente a me ver pretensioso ou pior, importante. Se eu não contar estas coisas, quem o fará? Embora seja inevitável, sempre me chateei muito com o grande número de coisas que escapam à História em função das versões mais ”oficiais” - e digo isso estando ciente que a minha também é, até certo ponto, uma versão. Mas pelo menos não estou escondendo nada conscientemente

Mas tudo isso começou bem antes, ainda em novembro de 2003, quando me convidaram para a 24ª. Jornada Nacional de Cineclubes. Uma idéia do Leopoldo Nunes, que eu conheci quando ele passava umas noites dormindo na cabine do Cauim (4), nos anos 70 e, segundo ele mesmo, escutando impressionado meus papos com o Kaxassa (5) . Agora ele era do governo, importante, na SECOM – onde rolava muita grana – depois do que parece toda uma carreira no PT e na ABD, que presidiu. O Leopoldo queria fazer o movimento ressurgir (e não é que ele “conseguiu”?). Há alguns meses estimulava grupos cineclubistas, de velhos principalmente, e alguns novos, a irem se juntando. Disso surgiu a tal Jornada.

Fomos eu e a Deisy, que agora já superou, mas foi dirigente do cineclubismo capixaba e fundadora e diretora do Oscarito (6) e do Elétrico (7). Muitos anos de cineclubismo. Estavam as figuras de cada estado, as velhas: Claudino, Luís Orlando, Diogo e sua turma, que agora chamava Centro Cineclubista de São Paulo, incluindo o Batista , sempre independente, inteligente e meio doido; o Hermano, grande orador, agora morando em Alagoas, e o Júnior, como anfitrião (8). De novos, que eu iria conhecer mais tarde e nos próximos meses, havia os cariocas – especialmente as meninas, mais falantes – e os gaúchos. Claro que eu estou esquecendo alguma coisa. Ah, o Pimentel. Ele disse que tinha vindo na marra, porque tinham boicotado ele, mas que conseguiu a passagem com a prefeitura.

A Jornada, que evidentemente não era uma Jornada, pois não tinha nenhuma norma nem nada, nem programa nem pauta, tinha um clima de festa e saudade, de homenagem e camaradagem, de desconfiança e culpa.

O Diogo, acho que um dos que mais batalhou pela coisa, e o Júnior, idem, queriam tirar dali um CNC ou coisa equivalente. Pensavam que tinha uma grana no ar, o governo pagando até passagem internacional para mim, todo mundo hospedado no Hotel Nacional – ah, era o Festival de Brasília, a jornada era dentro do Festival de Brasília.

O problema é que os dois queriam ser presidente, o Diogo pelo prestígio, o Júnior pela oportunidade de negócio, que o Diogo também não despreza. Nós outros, velhos – com exceção do Luís Orlando, que fechava com o Diogo sem perguntar – fomos sacando: a jornada era uma sucessão de homenagens (9) (é um traço típico do Diogo, que dessa forma procura emprestar um pouquinho do prestígio do homenageado, ao mesmo tempo que dá uma puxada de saco, dependendo do caso – no meu, que também fui homenageado, claro, foi visivelmente a contragosto), de reminiscências, de coisas para passar o tempo. Não tinha proposta, nada. Os novos também foram estranhando aquilo – misturado com o fato de que ninguém tinha informação do largo histórico que nos unia, isto é, afastava, principalmente do grupo do Diogo. Devia ser um clima estranho para eles.

Para encurtar, fizemos uma reunião com todos os principais protagonistas, acho que no meu quarto, e fizemos ver gentilmente ao Diogo e ao Júnior que nós não permitiríamos que se formasse uma entidade sem programa, só para desfrutar do aparente apoio oficial. Para complicar, as ambições dos dois ainda os dividiam e enfraqueciam mais. No fim, todo mundo fechou com a constituição de uma Comissão Nacional de Reorganização do Movimento Cineclubista, ou pompa semelhante, que prepararia uma nova Jornada, com pré-jornada antes, ampla convocação, discussão de propostas, para então se reorganizar o CNC. Manhosos, o Diogo conseguiu que a Jornada fosse em SP e organizada pelo Centro Cineclubista, e o Pimentel, em compensação, ficou com a Pré-Jornada, em Rio Claro, onde ele era da prefeitura.

Assim terminou a gloriosa 24ª. Jornada, com a formação da Comissão Nacional. Não lembro se o Claudino era presidente, se tinha esse cargo, ou se ele é sempre presidente, onde quer que esteja, pelo carisma e autoridade moral. Para mim ficou como presidente. Além dele estavam o Diogo, o Júnior, Luís Orlando, Cassol, Débora (10) e Hermano. Havia uma figura na jornada que tinha muita dificuldade em fechar com todos: um tal de Frederico (11), do Rio. Ele achava, ou pelo menos dizia, que aquilo tudo era ilegítimo porque o Estado é que estava estimulando. Que ironia, né?

Na Jornada também cometi um grande erro de avaliação, que espero ter compensado nos poucos anos seguintes que tive para isso: estava presente também o Juan Carlos Arch (12), trazido pelo Júnior, não sei bem, e representando a FICC . Minha experiência dos anos 70 e 80 – quando a FICC, absolutamente eurocêntrica, só tirou de nós, sem nada aportar - me levou a praticamente ignorá-lo, contribuindo para que não tivesse o espaço que merecia. Mais tarde eu ia aprender a respeitar e gostar dessa figura que agora faz parte do panteão do cineclubismo mundial.

Bom, finda a Jornada, voltei para o Canadá. Mas antes acertei com o Leopoldo o apoio do MINC para um projeto que eu tinha, de estimular a criação de cineclubes nas comunidades brasileiras no exterior, cada vez maiores e mais importantes. O apoio do Minc não era grana, não. Era viabilizar filmes. Ele disse que o Minc mesmo tinha uma porrada de filmes e era só eu pedir que eles iam mandar. Tudo certinho. Me autorizou a entrar em contato com vários países e começar a organizar a coisa.

Nesse quesito, foi o que eu fiz nos meses seguintes: gastei uma nota em interurbanos – para convencer e conquistar as pessoas é legal falar com elas – com Paris, Londres, Bruxelas, Tóquio, Miami, etc. Mas no telefone do Leopoldo a coisa foi miando. Sabe como é (coisa tão típica deste nosso Brasil cordial): primeiro ele já não atendia, mas a secretária, depois a secretária da secretária, depois um auxiliar, depois era já noutra seção... Foram meses de credulidade e interurbanos que realmente chegaram a um grande nada. E sem filmes cedidos e transportados com a ajuda do governo, nicas de pitibiribas. Aí tem que pagar a produtora, fazer festival. Não deu em nada.

Um dia quero escrever um ensaio sobre essa coisa da cordialidade brasileira, a aversão ao conflito, do mais sério ao mais leve, que impregna as relações Estado/sociedade nos dois sentidos. E que está presente de forma marcante nas questões atuais do relacionamento dos cineclubes e do CNC com o governo. Queria escrever sobre o “sim” institucional e social. No Brasil é muito raro dizer não a uma demanda. Eu lembro até com saudade de um não que recebi numa proposta que mandei para a Phillip Morris nos anos 70 - antes do cigarro virar moléstia, inclusive para efeitos de leis de fomento, que, aliás, também não existiam naquela época. Sempre dizem sim, e não quer dizer nada. Aqui no Canadá diz-se bastante não, e às vezes até dá para reverter. Mas não o sim no Brasil: esse é implacável, incontornável, definitivamente ambíguo, e na quase totalidade das vezes implica no sumiço do interlocutor, na enrolação até o desespero, no não a prestações. Este relato vai estar cheio desses casos.

Mas voltando, no outro quesito, Comissão de Cineclubes, foi criada uma lista de discussão. Já de saída começou a dar problema. O presidente do Centro Cineclubista, um velho conhecido que, muito moleque, tinha trabalhado no Oscarito, agora era Doutor. Digo Doutor, com maiúscula e tudo, porque era a primeira coisa que você ficava sabendo dele. Ele inclusive assina Doutor ou Professor Jeosafá (13); era o e-mail dele. Como eu tinha conhecido ele muito garoto, essa pompa toda era engraçada. E também não tem a menor importância. Ou talvez tenha um pouco, sim, no sentido de que essa importância toda, aliada a uma postura muito partidária – no caso, do PC do B – fazia dele um administrador... é esse o nome? de lista muito chato. E autoritário. Acabou sendo criada outra lista, depois de uns lances tragicômicos, em que o professor expulsou da lista uns caras que eram muito brincalhões... Por isso é que ainda existe uma lista “cineclubismo”, que ninguém usa; sobrou desse melê aí. Enfim. A disputa estava encruada. Divisões se delineavam na Comissão; normal, era lá que estavam as diferentes posições e, principalmente, interesses.

O Júnior – olha aí, História, o mérito é dele (mais ou menos) – inventou um projeto de distribuição de kits para cineclubes. Esquisito o projeto, mas é a longínqua origem desses kits todos aí. E também dos negócios que fazem com eles. Esses kits eram equipamentos de projeção (não lembro quantos) a serem distribuídos através... dos membros da Comissão. Os sete samurais teriam o poder pessoal de distribuir esse material nas suas regiões. Digo samurais pelo filme e pelo feudalismo que esse projeto consagrava. Outro aspecto antigo, é que previa um projetor 35 mm para cada um, desculpe, para cada região.

E eu – prestando contas, hem – em Montreal, estava ligadíssimo. Graças à ajuda e ao talento – até hoje acho a coisa mais bem feita, no sentido da simplicidade, que eu já vi nessas internets da vida – da Zezé Pina, criei um saite meu: cineclube (14). Que está lá até hoje, já com uma certa poeira cibernética (não teve nenhuma nova “entrada” depois de 2004), mas tem arquivados muitos dos textos que talvez eu lembre aqui e, de certa fora, reconstituem o clima dessa nossa fase histórica.

Em abril para maio de 2004 aconteceu a pré-jornada, em Rio Claro. Eu estava, daqui, esbravejando contra os critérios do tal pacote de kits. Não fui, naquela ocasião, expulso de nada, mas apesar de todo o apoio governamental, a Comissão não pediu a minha presença: seria incômodo. Eu sou incômodo, é a minha sina... É importante constar que o Pimentel, organizador do certame, publicou e distribuiu todos os meus textos, que, pasmem!, acho que ninguém leu.

Como eu não estava presente, o que sei, fundamentalmente, é que foi um sucesso, bem organizada para os padrões cineclubistas, com a presença de mais de 100 pessoas. Depois isso se repetiu também em Vitória, em 2007: na ausência da Jornada anual, a pré-jornada vira quase uma. Este ano não vai ser assim, porque a pré-jornada virou ou misturou – vamos ver no que dá – um encontro de “cines”... Houve, lá, também umas brigas com a turma do Diogo, que levou uma claque pra impressionar e fez uma manifestação contra as condições de alojamento. A jornada mesmo, que é o motivo de se reunir a pré-jornada, não foi discutida, mas a disputa estava bem encruada.

Outra coisa importante foi que o Juan Carlos Arch e a FICC levaram o Claudino – por indicação da Comissão – para uma reunião da FICC na Itália. Foi o começo da rearticulação do movimento cineclubista latino-americano e, também, de uma nova fase na vida da FICC. Outra hora falo disso, da FICC e das coisas internacionais, todo um outro grande capítulo nesta história.

Não sei se foram os ecos das brigas ou se até mesmo o que escrevi sobre a, digamos, mal pensada proposta de distribuição de kits, o fato é que os kits não foram mais considerados pelo governo e aquela certeza de apoio para a jornada começou a minguar.

A briga estava acirrada. Já corriam textos discutindo “diferentes visões” de cineclubismo. Eu, para variar, fui o interlocutor do lado de cá; do lado de lá principalmente o Professor Jeosafá. Em junho ou julho lançaram um manifesto pelo “novo” cineclubismo”. No meu velho saite tem dois textos sobre isso (15): um que discute e reproduz o tal manifesto e outro que canta a bola do que iria ocorrer seis meses depois: "otimistas" ou abstêmios políticos serão surpreendidos por uma jornada de cartas marcadas, com uma "maioria" de "cineclubes" recentemente constituídos” Abstêmios políticos eram aqueles que não queriam saber da polêmica, achando que tudo não passava de querelas antigas, pessoais. Como agora, né? Evitar o debate afirmando que é problema pessoal (ou, hoje em dia, regional) é um curioso mecanismo de alienação que parece recorrente no cineclubismo brasileiro...
A própria Comissão Nacional pouco trabalhou pela preparação política, quer dizer, os aspectos de mobilização, participação, representatividade da Jornada, que deviam ter sido aprofundados na Pré-Jornada. Em agosto eu escrevi uma proposta mais elaborada de tremário para a Jornada, em resposta a uma convocatória muito simples exarada pela Comissão. Meses mais tarde essa proposta de temário foi adotada integralmente. No saite http://www.cineclube.utopia.com.br/ , na seção Arquivo, rubrica 25a. Jornada estão todos os documentos e propostas que eu produzi na ocasião, com vistas a contribuir e estimular uma maior politização, quer dizer, democratização da participação dos cineclubes brasileiros na Jornada. Prestação de contas...

À medida que se aproximava o fim do ano de 2004, a Jornada foi sendo atrasada, e ficou evidente a incompetência do Centro Cineclubista para organizá-la. Um esforço de última hora reuniu um monte de gente. O Claudino veio para São Paulo e assumiu a coordenação da organização do encontro, que não teria saído de outra forma. O Kaxassa entrava em contato com o Leopoldo – ambos da “escola” de Ribeirão Preto...

Paralelamente, outro esforço era feito em Rio Claro, para a organização do 1º. Encontro Ibero Americano de Cineclubes. Como a Jornada mudou de data várias vezes, ameaçada de não se realizar, ficou difícil confirmar datas com as delegações internacionais. No fim, furaram várias, especialmente as ibéricas. Mas Paolo Minuto, presidente da FICC e da Federação Italiana, que não participaria do Encontro, esteve alguns dias antes no Brasil.

Mais uma vez fui ao Brasil graças ao Leopoldo, para mim ressurgido das cinzas. Minha contribuição inicial para o Encontro Ibero-americano, que estava meio esvaziado pelos motivos acima, foi ir atrás de mais países. Na Cinemateca estava acontecendo um encontro de pesquisadores e eu fui procurar o Santiago Carrillo, da Cinemateca Uruguaia, velho companheiro entre as minoritárias cinematecas que apóiam os cineclubes. Com a ajuda dele, que não poderia comparecer assim em cima do hora, levamos uma grande figura da Cinemateca Peruana, Nora Izcue (espero não estar fazendo confusão com o nome). Além dela vieram o Juan Carlos, já bem doente, de ônibus, e um bando de mexicanos loucos. Lindamente loucos. Dois garotos de Oaxaca, do Cineclub El Pochote, que virarão lenda depois, em meio aos conflitos daquela província mexicana, e os grandes amigos do Cineclub Bravo, cuja contribuição para o movimento cineclubista mundial vai voltar a aparecer neste relato

Notas:

1) João Batista de Andrade, então secretário da Cultura do estado de SP.
2) Fundação Memorial da América Latina, em São Paulo
3) João Batista Pimentel, atual secretário do CNC e assessor na prefeitura de Atibaia, SP
(4) Cineclube Cauim, de Ribeirão Preto
(5) Fernando “Kaxassa”, presidente do CC Cauim desde 1971.
(6) Cineclube 35 mm que funcionou na Praça Roosevelt, em São Paulo, entre 1985 e a primeira metade da década seguinte.
(7) Elétrico Cineclube, grande cineclube com 2 salas em 35 mm, a primeira sala de vídeo de SP, bar, “lojinha”, vídeo-clube, etc. Funcionou entre 1990 e 1994.
(8) Claudino – Antonio Claudino de Jesus (ES), atual presidente do CNC; Luís Orlando da Silva, liderança histórica do cineclubismo e do movimento negro da Bahia, falecido; Diogo Gomes dos Santos (SP), ex-presidente do CNC (1984-86); João Batista de Jesus Félix, cineclubista, militante do movimento negro, hoje professor e cineclubista na Universidade de Tocantins; Hermano Figueiredo (AL), líder cineclubista com origem no RN, hoje realizador de curta-metragens e diretor de um programa federal de estímulo à produção, e Antenor Gentil Júnior, ex-liderança cineclubista, antigo presidente da federação de cineclubes de Brasília, atualmente assessor do governo do Distrito Federal.
(9)“Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude” – La Rochefoucauld
(10) Luís Alberto Cassol, vice-prsidente do CNC, curta-metragista e director do Festival de Santa Maria (RS); Débora Butruce, pesquisadora de cinema e diretora do Cachaça Cineclube (RJ).
(11) Frederico Cardoso RJ), Coordenador do programa Cine+Cultura, ex-dirigente da ASCINE e da ABD/Rio.
(12) Presidente da Federação Argentina de Cineclubes, Secretário Latino-americano da FICC, incansável batalhador do cineclubismo, falecido em 2008. Hoje ele é o “nosso Quixote”, em referência ao seu idealismo, espírito de luta e também às suas feições, magras e expressivas, que lembram o lendário cavaleiro andante. Que também é o símbolo do cineclubismo mundial.
Federação Internacional de Cineclubes
(13) Jeosafá Fernandes, professor e militante partidário, ex-presidente do Centro Cineclubista de SP.
(14) http://cineclube.utopia.com.br/
(15) “Cinecura ou o oportunismo manifesto” e “A Vanguarda do Atraso”, ambos na seção debate do saite.