
Bueno, passaram-se 5 meses desde o texto anterior. Passei o outono me atualizando na universidade, com uma carga de trabalho enorme. Comparativamente, agora vai ficar mais fácil, pois passo à pesquisa “pura” e aos assuntos que me interessam diretamente. Por isso acho que poderei manter estes blogues e, ou deixar uma contribuiçãozinha aí para os cineclubistas ou, pelo menos, sossegar algumas das minhas ansiedades. Como dá para ver na foto acima, tirada da minha janela há alguns dias, o verão ficou longe. Mas hoje está um belo dia, ensolarado, que é quando fica mais frio. Está 29 graus negativos.
A Jornada de 2004
Retomando, então, o relato de 2004, vou para Rio Claro, no final de novembro. O Encontro Ibero-americano foi um primeiro contato mais organizativo mesmo com o pessoal da Argentina (Juan Carlos Arch – ver entrada anterior do blogue) e do México, com vários representantes. Mas também estava presente o Perú, meio de observador, assim como todos os membros da Comissão Reorganizadora Nacional e mais uns anexos. Importante lembrar o Leonel Luccini, cineasta e cineclubista argentino, pessoa muito querida, radicado há muitos anos em Brasília e que sempre esteve muito próximo do Juan Carlos Arch, com quem tinha muito em comum, inclusive uma grave doença que levaria ambos nos anos seguintes. Também o Carlos Seabra (1) e a Zezé Pina, mulher dele (ou vice-versa), que também estabeleceram seus laços com os visitantes estrangeiros. E a Bia Werther (2), que fez um grande esforço para criar uma organização regional do Rio Grande do Sul e levou uma grande delegação para a Jornada, o que foi muito importante. A Bia tem grandes e raras qualidades, como inteligência e caráter, mas é sobretudo uma artista - com o que isso tem de positivo e negativo - mais que uma cineclubista, e tem uma personalide, um ego, digamos, bem desenvolvidos: na prática isso inviabiliza uma atividade coletiva consequente. Mas isso é assunto para mais adiante.
A Jornada de 2004
Retomando, então, o relato de 2004, vou para Rio Claro, no final de novembro. O Encontro Ibero-americano foi um primeiro contato mais organizativo mesmo com o pessoal da Argentina (Juan Carlos Arch – ver entrada anterior do blogue) e do México, com vários representantes. Mas também estava presente o Perú, meio de observador, assim como todos os membros da Comissão Reorganizadora Nacional e mais uns anexos. Importante lembrar o Leonel Luccini, cineasta e cineclubista argentino, pessoa muito querida, radicado há muitos anos em Brasília e que sempre esteve muito próximo do Juan Carlos Arch, com quem tinha muito em comum, inclusive uma grave doença que levaria ambos nos anos seguintes. Também o Carlos Seabra (1) e a Zezé Pina, mulher dele (ou vice-versa), que também estabeleceram seus laços com os visitantes estrangeiros. E a Bia Werther (2), que fez um grande esforço para criar uma organização regional do Rio Grande do Sul e levou uma grande delegação para a Jornada, o que foi muito importante. A Bia tem grandes e raras qualidades, como inteligência e caráter, mas é sobretudo uma artista - com o que isso tem de positivo e negativo - mais que uma cineclubista, e tem uma personalide, um ego, digamos, bem desenvolvidos: na prática isso inviabiliza uma atividade coletiva consequente. Mas isso é assunto para mais adiante.
O Encontro, sem tanta representatividade em termos de países, teve o papel fundamental de integrar as pessoas, em níveis de camaradagem, amizade, informalidade, alegria, que eu só conheço no movimento cineclubista – e reconheço de outras épocas. Muita conversa, muita festa: vínculos realmente orgânicos como diria o próprio Gramsci, acho. Saiu uma Carta de Rio Claro, desgastada “tradição” de reuniões desse tiopo, com princípios bem gerais cuja eloqüência expressava pouco mais que essa camaradagem, importante - não, fundamental - no entanto.
Os "gringos" ficaram para a Jornada, realizada logo em seguida em São Paulo. Como eu disse antes, a organização da Jornada havia sido assumida pelo Claudino e uma pequena equipe que ele trouxe do Espírito Santo, face à absoluta incapacidade de organização do Centro Cineclubista. No entanto, assim que a organização se resolveu, o pessoal do Centro retomou o mando do evento – de resto como lhe havia sido atribuído pela Jornada anterior, de Brasília.
O clima era muito ruim. Eu falei da presença da Comissão Nacional em Rio Claro, mas ela pouco ou nada participou do Encontro internacional: ficou tentando administrar a crise provocada pelas posições do Diogo (ver entrada anterior do blogue) e seus aliados: fundamentalmente um grupo do PC do B paulista, mais o Luiz Orlando (ibid.) e uma liderança da Bahia que teria um papel importante nos acontecimentos seguintes: Lú Cachoeira (3), uma figura escorregadia que sempre trabalhou pela divisão do movimento cineclubista brasileiro – voltarei a ele, infelizmente.
O Luiz Orlando, ao contrário, sempre foi um cara fantástico. Eu acho que uma relação pessoal muito forte com o Diogo sempre o levou a fechar com um sectarismo que não combinava com ele. Tanto que, quase sempre em posições opostas nos eventos cineclubistas, mantínhamos correspondência mesmo comigo no Canadá: ele mandava material para o meu saite (por carta e endereçada com máquina de escrever, o que não se esquece, né?).
Estes anos têm sido de perdas muito significativas para o movimento cineclubista: desde figuras históricas mais longínquas, como o Carlos Vieira ou o Rudá de Andrade, até os mais ou menos da minha geração, que tiveram ainda um papel importante nesta etapa do cineclubismo brasileiro. Luiz Orlando foi um dos maiores – e dos melhores que eu conheci.
Mas, voltando: o que eu havia “cantado” meses antes (ver o texto A Vanguarda do Atraso na seção Debate, em http://cineclube.utopia.com.br/ ), aconteceu. São Paulo apresentava-se para a Jornada com quase 50 cineclubes, a maioria da capital. O que equivalia a mais ou menos a metade do total dos cineclubes presentes, de todo o País. Ora, era notória a ausência de atividade cineclubista em São Paulo e claramente visível a “maioria” construída para ganhar votações e eleições: cerca de 40 cineclubes completamente inventados.
A crise estabeleceu-se desde as reuniões da Comissão em Rio Claro e iria explodir nas plenárias e outras reuniões da Jornada. Com base na tradição democrática do movimento – conforme os antigos estatutos do CNC – a Comissão Nacional passou a examinar a existência dos cineclubes sob os critérios de terem estrutura democrática e seis meses de existência comprovada antes da Jornada. Dos 7 membros da Comissão, apenas o Diogo e o Luiz Orlando – muito sem jeito este último – votaram a favor da atribuição de votos a esses “cineclubes”. Mas, pela mesma tradição, essas decisões deviam ser reafirmadas pela assembléia, em grau de apelação.
Paralelamente, a Jornada se desorganizava. O grupo do Centro Cineclubista, responsável pela organização, abandonou suas tarefas e o programa de atividades começou a furar em todos os aspectos. A atitude golpista desse pessoal de São Paulo – havia outros cineclubes desse estado, principalmente do interior, que não tinham nada a ver com isso – acabou provocando um efeito inverso, e positivo. As novas lideranças, que não entendiam muito bem as desconfianças entre os dois grupos de antigos cineclubistas (que já tinham se oposto mais de 20 anos antes), uniram-se em face do golpe, formando uma ampla maioria nacional. As assembléias, prejudicadas pelo clima, provocações e até malentendidos (eu mesmo, no calor da briga, encaminhei contra o direito de voto de um cineclube do grupo do Diogo que, entretanto, tinha de fato atividade (4) – do que me arrependo bastante), recusaram o direito de voto à grande maioria dos falsos cineclubes.
A Jornada quase deixou de funcionar, mantidas apenas as condições de alojamento e alimentação – todas no hotel Excelsior (onde meu pai trabalhou, uns 50 anos antes), no centro velho de São Paulo – negociadas previamente. A impressão de documentos, essenciais, deixou de ser feita e a obtenção de salas para grupos de trabalho e atividades semelhantes que constituem o eixo do congresso, ficaram muito prejudicadas. Mesmo assim, uma assembléia bastante representativa discutiu detalhadamente e fez várias modificações na proposta de estatutos que eu apresentei (também está na rubrica da Jornada, no saite citado anteriormente). Apesar de ser interrompida várias vezes pelas provocações, especialmente do João Subires, se fazendo de carne-de-canhão para o “grupo do Diogo”.
Os convidados estrangeiros estavam entre a perplexidade e a diversão, pouco acostumados à virulência que se via nas reuniões e assembléias que, ao mesmo tempo, indicavam um grau elevado de participação, de democracia (comparativamente, hoje vivemos uma atmosfera de cumprimentos gentis e silêncios eloquentes). Isso foi bem engraçado.
Sob a liderança do Professor Jeosafá, por parte do Centro Cineclubista, e mais ou menos do núcleo da Comissão Nacional, pelo resto do País, reuniões frenéticas se realizavam, tentando acertar a participação do grupo golpista na diretoria que seria eleita. Ele dizia que, se eles não participassem da direção eleita, os representantes do partido dele no governo e no ministério da Cultura isolariam a entidade que saísse daquele congresso. Palavras proféticas – não é bem o termo, né? – que se confirmaram logo em seguida e nos anos seguintes. Por outro lado, se aceitássemos , eles adiantavam cifras importantes, em grana mesmo, que viriam do governo: na casa do milhão, ou mais... Eu me incluí nesse "aceitássemos" porque me reconheço naquele grupo e participei ativamente de muita coisa, mas não especificamente dessas reuniões: morava no Canadá e não seria candidato a nada. Hoje a situação ficou bem diferente e eu, mesmo quando ainda estava no Brasil, e com cargo na entidade!, fui sendo afastado das instâncias de discussão do CNC - assunto a que chegarei mais dia, menos dia...
Na 25a. Jornada, essas “negociações” ocorriam entre lideranças, um grupo um pouco ampliado da antiga Comissão Nacional (cujo mandato se encerrava com a realização da Jornada) e o entourage do Diogo e do Jeosafá. Mais tarde, principalmente no quarto do Claudino, essas conversas eram submetidas a grupos mais amplos, incluindo muitos estados. E de lá se disseminavam em outros quartos e reuniões da mais variada qualidade... Foi essa “base” ampliada que desautorizou (bons tempos...), que recusou qualquer composição – acho que o golpe, a sofreguidão pelo poder, muito aparente, realmente chocou o pessoal que, durante os meses anteriores, não entendia muito as divergências que tinham aparecido entre os cineclubistas mais velhos. Não aceitar a chantagem foi condição para a construção de uma unidade muito grande, nacional.
Teve um momento especial, de catarse mesmo, em que se selou essa unidade e se decidiu realmente pela reorganização do CNC, com o compromisso de todos. Nesse “pacto” estavam presentes uns dez estados, um montão de gente, apertados naquele quartinho do hotel. A única ausência, entre os estados que compareceram à Jornada, era a Bahia. O carioca Frederico Cardoso, sempre contrário à organização da entidade, foi o último a aderir ao projeto.
Rompidas as negociações, a coisa degringolou completamente. Na plenária seguinte, o Diogo fez um pronunciamento e promoveu uma retirada épica, teatral, da Jornada. Saiu o grupo paulistano, bem minoritário, sem esvaziar a plenária. O Lú Cachoeira criou um “muro” muito curioso para se aboletar: ele propôs que a Bahia (cujas bases participaram ativamente, por exemplo, da discussão dos estatutos do CNC) se declarasse ausente, mas que ficasse na plenária. Ele mesmo arranjou um jeito de ficar na mesa; até tentou ficar dirigindo a assembléia, mas foi afastado, pela própria, da presidência dos trabalhos. Essa coisa meio esquizofrênica foi meio tragicômica. Por um lado, a manipulação de um sentido de solidariedade regional fez com que a Bahia, que estava representada por um número significativo de cineclubes, não integrasse mesmo aquele momento especial de reorganização do movimento cineclubista. Por outro lado, quando alguém da delegação baiana se manifestava – porque queriam e mereciam participar – “não estava presente”. Eu me lembro de uma senhora do interior que disse mais ou menos isto, ao final de uma intervenção: “mas eu estou aqui, né?”. Ou, como diria o Galileu: eppur si muove...
Tudo isso fez da Jornada um encontro memorável, marcante pelos aspectos positivos – a reunião de uma grande número de estados brasileiros, dezenas de cineclubes, o estabelecimento de fortes amizades, breves romances e, especialmente, a afirmação de um desejo comum de construir um movimento realmente nacional (e internacional), de levar as comunidades (mais tarde diríamos o público) a participar da política do audiovisual no Brasil. Mas onde também o lado negativo cobrou sua fatura: a jornada se concentrou mais, mais tempo, no afastamento das dificuldades do que na construção, na definição mesmo de um projeto comum. De certa forma essa tem sido a marca do movimento brasileiro, que não aprofunda seu projeto e não constrói sua autonomia com a mesma ênfase que coloca, hoje, em aspectos formais e, sobretudo, na relação (não, dependência mesmo) com o Estado. Nesse sentido, consideradas as dificuldades dessa Jornada – e comparando com outras, bem mais “pacíficas”, mas igualmente pouco produtivas nesse quesito - ela foi uma vitória importante. Entra para a História com o instrumento de reorganização do movimento cineclubista no começo deste século.
Assim, a Jornada conseguiu estabelecer uma diretoria para o CNC, com representantes de 10 estados. Mas não discutiu um programa para essa direção: o tempo (4 dias inteiros) havia sido consumido em todas as brigas e peripécias que eu descrevi aqui muito sucintamente.
O programa aprovado na plenária final foi escrito por mim (prestação de contas) – por delegação de todos e porque era eu quem mais tinha feito proposições concretas para o movimento, no saite e em textos como o estudo da proposta da Ancinav (que pode ser visto no saite já indicado, na rubrica Documentos).
Eu, claro, sou suspeito, suspeitíssimo, para falar, mas o programa (que está no saite do CNC: http://www.cineclubes.org.br/ ) foi reiterado nas Jornadas seguintes, em 2006 e 2008. O que, acredito (ou espero), não se deve apenas à pouca discussão a que me referi antes, mas também à qualidade do projeto, da interpretação que fiz de uma posição do conjunto do movimento.
Notas
(1) Carlos Seabra, liderança histórica do movimento, o cara que órienta e constrói nossas idéias e eventualmente instrumentos na área da informática. Mas que é bem mais que um especialista nisso.
A crise estabeleceu-se desde as reuniões da Comissão em Rio Claro e iria explodir nas plenárias e outras reuniões da Jornada. Com base na tradição democrática do movimento – conforme os antigos estatutos do CNC – a Comissão Nacional passou a examinar a existência dos cineclubes sob os critérios de terem estrutura democrática e seis meses de existência comprovada antes da Jornada. Dos 7 membros da Comissão, apenas o Diogo e o Luiz Orlando – muito sem jeito este último – votaram a favor da atribuição de votos a esses “cineclubes”. Mas, pela mesma tradição, essas decisões deviam ser reafirmadas pela assembléia, em grau de apelação.
Paralelamente, a Jornada se desorganizava. O grupo do Centro Cineclubista, responsável pela organização, abandonou suas tarefas e o programa de atividades começou a furar em todos os aspectos. A atitude golpista desse pessoal de São Paulo – havia outros cineclubes desse estado, principalmente do interior, que não tinham nada a ver com isso – acabou provocando um efeito inverso, e positivo. As novas lideranças, que não entendiam muito bem as desconfianças entre os dois grupos de antigos cineclubistas (que já tinham se oposto mais de 20 anos antes), uniram-se em face do golpe, formando uma ampla maioria nacional. As assembléias, prejudicadas pelo clima, provocações e até malentendidos (eu mesmo, no calor da briga, encaminhei contra o direito de voto de um cineclube do grupo do Diogo que, entretanto, tinha de fato atividade (4) – do que me arrependo bastante), recusaram o direito de voto à grande maioria dos falsos cineclubes.
A Jornada quase deixou de funcionar, mantidas apenas as condições de alojamento e alimentação – todas no hotel Excelsior (onde meu pai trabalhou, uns 50 anos antes), no centro velho de São Paulo – negociadas previamente. A impressão de documentos, essenciais, deixou de ser feita e a obtenção de salas para grupos de trabalho e atividades semelhantes que constituem o eixo do congresso, ficaram muito prejudicadas. Mesmo assim, uma assembléia bastante representativa discutiu detalhadamente e fez várias modificações na proposta de estatutos que eu apresentei (também está na rubrica da Jornada, no saite citado anteriormente). Apesar de ser interrompida várias vezes pelas provocações, especialmente do João Subires, se fazendo de carne-de-canhão para o “grupo do Diogo”.
Os convidados estrangeiros estavam entre a perplexidade e a diversão, pouco acostumados à virulência que se via nas reuniões e assembléias que, ao mesmo tempo, indicavam um grau elevado de participação, de democracia (comparativamente, hoje vivemos uma atmosfera de cumprimentos gentis e silêncios eloquentes). Isso foi bem engraçado.
Sob a liderança do Professor Jeosafá, por parte do Centro Cineclubista, e mais ou menos do núcleo da Comissão Nacional, pelo resto do País, reuniões frenéticas se realizavam, tentando acertar a participação do grupo golpista na diretoria que seria eleita. Ele dizia que, se eles não participassem da direção eleita, os representantes do partido dele no governo e no ministério da Cultura isolariam a entidade que saísse daquele congresso. Palavras proféticas – não é bem o termo, né? – que se confirmaram logo em seguida e nos anos seguintes. Por outro lado, se aceitássemos , eles adiantavam cifras importantes, em grana mesmo, que viriam do governo: na casa do milhão, ou mais... Eu me incluí nesse "aceitássemos" porque me reconheço naquele grupo e participei ativamente de muita coisa, mas não especificamente dessas reuniões: morava no Canadá e não seria candidato a nada. Hoje a situação ficou bem diferente e eu, mesmo quando ainda estava no Brasil, e com cargo na entidade!, fui sendo afastado das instâncias de discussão do CNC - assunto a que chegarei mais dia, menos dia...
Na 25a. Jornada, essas “negociações” ocorriam entre lideranças, um grupo um pouco ampliado da antiga Comissão Nacional (cujo mandato se encerrava com a realização da Jornada) e o entourage do Diogo e do Jeosafá. Mais tarde, principalmente no quarto do Claudino, essas conversas eram submetidas a grupos mais amplos, incluindo muitos estados. E de lá se disseminavam em outros quartos e reuniões da mais variada qualidade... Foi essa “base” ampliada que desautorizou (bons tempos...), que recusou qualquer composição – acho que o golpe, a sofreguidão pelo poder, muito aparente, realmente chocou o pessoal que, durante os meses anteriores, não entendia muito as divergências que tinham aparecido entre os cineclubistas mais velhos. Não aceitar a chantagem foi condição para a construção de uma unidade muito grande, nacional.
Teve um momento especial, de catarse mesmo, em que se selou essa unidade e se decidiu realmente pela reorganização do CNC, com o compromisso de todos. Nesse “pacto” estavam presentes uns dez estados, um montão de gente, apertados naquele quartinho do hotel. A única ausência, entre os estados que compareceram à Jornada, era a Bahia. O carioca Frederico Cardoso, sempre contrário à organização da entidade, foi o último a aderir ao projeto.
Rompidas as negociações, a coisa degringolou completamente. Na plenária seguinte, o Diogo fez um pronunciamento e promoveu uma retirada épica, teatral, da Jornada. Saiu o grupo paulistano, bem minoritário, sem esvaziar a plenária. O Lú Cachoeira criou um “muro” muito curioso para se aboletar: ele propôs que a Bahia (cujas bases participaram ativamente, por exemplo, da discussão dos estatutos do CNC) se declarasse ausente, mas que ficasse na plenária. Ele mesmo arranjou um jeito de ficar na mesa; até tentou ficar dirigindo a assembléia, mas foi afastado, pela própria, da presidência dos trabalhos. Essa coisa meio esquizofrênica foi meio tragicômica. Por um lado, a manipulação de um sentido de solidariedade regional fez com que a Bahia, que estava representada por um número significativo de cineclubes, não integrasse mesmo aquele momento especial de reorganização do movimento cineclubista. Por outro lado, quando alguém da delegação baiana se manifestava – porque queriam e mereciam participar – “não estava presente”. Eu me lembro de uma senhora do interior que disse mais ou menos isto, ao final de uma intervenção: “mas eu estou aqui, né?”. Ou, como diria o Galileu: eppur si muove...
Tudo isso fez da Jornada um encontro memorável, marcante pelos aspectos positivos – a reunião de uma grande número de estados brasileiros, dezenas de cineclubes, o estabelecimento de fortes amizades, breves romances e, especialmente, a afirmação de um desejo comum de construir um movimento realmente nacional (e internacional), de levar as comunidades (mais tarde diríamos o público) a participar da política do audiovisual no Brasil. Mas onde também o lado negativo cobrou sua fatura: a jornada se concentrou mais, mais tempo, no afastamento das dificuldades do que na construção, na definição mesmo de um projeto comum. De certa forma essa tem sido a marca do movimento brasileiro, que não aprofunda seu projeto e não constrói sua autonomia com a mesma ênfase que coloca, hoje, em aspectos formais e, sobretudo, na relação (não, dependência mesmo) com o Estado. Nesse sentido, consideradas as dificuldades dessa Jornada – e comparando com outras, bem mais “pacíficas”, mas igualmente pouco produtivas nesse quesito - ela foi uma vitória importante. Entra para a História com o instrumento de reorganização do movimento cineclubista no começo deste século.
Assim, a Jornada conseguiu estabelecer uma diretoria para o CNC, com representantes de 10 estados. Mas não discutiu um programa para essa direção: o tempo (4 dias inteiros) havia sido consumido em todas as brigas e peripécias que eu descrevi aqui muito sucintamente.
O programa aprovado na plenária final foi escrito por mim (prestação de contas) – por delegação de todos e porque era eu quem mais tinha feito proposições concretas para o movimento, no saite e em textos como o estudo da proposta da Ancinav (que pode ser visto no saite já indicado, na rubrica Documentos).
Eu, claro, sou suspeito, suspeitíssimo, para falar, mas o programa (que está no saite do CNC: http://www.cineclubes.org.br/ ) foi reiterado nas Jornadas seguintes, em 2006 e 2008. O que, acredito (ou espero), não se deve apenas à pouca discussão a que me referi antes, mas também à qualidade do projeto, da interpretação que fiz de uma posição do conjunto do movimento.
Notas
(1) Carlos Seabra, liderança histórica do movimento, o cara que órienta e constrói nossas idéias e eventualmente instrumentos na área da informática. Mas que é bem mais que um especialista nisso.
(2) Bia Werther é gaúcha, cineasta e estimuladora de uma série de iniciativas, como a lista Cine8, o Festival LivreOlhar, entre outras.
(3) Luiz Cachoeira – não sei se é o nome do Registro Civil, é uma liderança política relativa (candidato a vários cargos municipais, nunca foi eleito), atuando também no meio cultural da cidade do mesmo nome, na Bahia.
(4) Creio que o nome era Cineclube Kinopheria, do bairro de Itaquera, representado pelo João Luiz de Brito Neto, um militante cineclubista de longa data, que respeito muito.
(3) Luiz Cachoeira – não sei se é o nome do Registro Civil, é uma liderança política relativa (candidato a vários cargos municipais, nunca foi eleito), atuando também no meio cultural da cidade do mesmo nome, na Bahia.
(4) Creio que o nome era Cineclube Kinopheria, do bairro de Itaquera, representado pelo João Luiz de Brito Neto, um militante cineclubista de longa data, que respeito muito.